Este blog é para lembrar que quanto mais doce for a língua, mais afiados ficam os dentes. Simples assim, pois já tive muitos critérios. Hoje, só vários delírios.
22 de maio de 2010
21 de maio de 2010
18 de maio de 2010
DEcrescendo, DEsevoluindo, DEcepcionando - se
Sabe quando tudo parece bem menor e bem menos interessante?
Sabe quando você se lembra de uma coisa que é incrível e espera ansiosamente por ela e aí...
Quando é chegado o grande dia... Não é mais a mesma coisa?
Sabe quando você se lembra de uma coisa que é incrível e espera ansiosamente por ela e aí...
Quando é chegado o grande dia... Não é mais a mesma coisa?
Meus alunos, fanáticos, assistindo ao Big Brother na sétima série e no ensino médio também (muitos deles eram medianos mesmo), o máximo. Eles torciam, e acreditava que era tudo muito real, as pessoas boas, as pessoas más. Depois, vê que a globo encheu a cara e deu o segundo lugar pra uma loira (?) que nem aparecia até que coincidentemente recebeu uma carta libetadora e... Ó óóó, virou uma super loura que bebe, se joga pra tudo que é homem e quem não é também, faz dancinha sensual etc. Sem contar na carinha natural de surpresa do Dourado, o cara que anos atrás disse na lavação de roupa suja que foi prejudicado pela edição.
Ou numa reunião de família, que era tão divertido e agora... parece que a sua família é tão pequena, e o que era tradição agora nem parece tão tradicional assim, só uma imposição para primos e agora os agregados deles que ficam sentadinhos aos pares nos cantos.
A diminuição das coisas também pode ser percebida quando você assiste desenho animado, o pica-pau é só um passarinho de risada irritante, os power ranger são um bando de atores com roupas coloridas idiotas, e o Doug é engraçadinho.
Como vês, estou ácida!
Seus pais agora são pessoas comuns e cheias de defeito que podem até te dar colo, mas não podem mais salvar o mundo, nem resolver seus problemas, que passaram de desentendimentos com seus coleguinhas a desemprego, separação, amores impossíveis, fracassos.
Parece um filme de Alice no país das Maravilhas, em que você fica mudando de tamanho o tempo todo e cai num buraco sem fim, e vai caindo... caindo.... e a luz no fim parece que nunca vai aparecer, você é grande demais para ser criança e pequeno demais para ser gente grande, você convive com a impressão de que devia ser mais inteligente, você sabe "muito" pouco para sua idade e o mercado quer isso e aquilo e você não é nem aquele!!! Nem esse! Você ainda nem sabe quem é você, pode dar informações banais como nome, endereço, telefone e número do CPF, mas além disso vai dizer o que? O seu objetivo é o primeiro item do seu currículo e você nem sabe se tem mesmo um objetivo! Só Deus sabe e você ainda não tem uma idéia formada sobre Deus, religião etc!
E você vai fazer o que?
O que quer fazer?
Quer estudar o que?
Quer trabalhar em que área?
O que ninguém parece entender é que o máximo que você tem agora é uma graduação em curso e um caminho iniciado que supostamente foi você que escolheu, mas na verdade você estava vendo tv, brincando, fazendo o dever de casa e de repente! Você havia crescido e precisava lidar com uma série de escolhas e problemas incompatíveis com seu tamanho. Você pode até ignorar um monte de coisas e passar metade do seu tempo se divertindo, bebendo, "pegando", e quem sabe até fumando maconha, mas isso não quer dizer que você esteja melhor. Só que arranjou uma forma de comer os cogumelos alucinógenos do país das maravilhas. Mas quando acordar vão te cobrar respostas da mesma maneira. Respostas que você não sabe nem onde procurar. Parece que decrescemos enfim, não somos mais tão satisfeitos como quando éramos crianças nem temos mais tanto esteio, e acho que se eu assistisse tv cruj hoje em dia, ligaria pro caju e diria pra ele não falar tão mal de ultra-velho, já é muito difícil ser gente grande sem filho, imagina gente grande com filho! Agora entendo porque os ultra-velhos eram tão malas, eles eram confusos e perdiam a capacidade de achar tudo divertido! Tadinhos deles, tadinho de nós!!!
Tadinhos de vocês, alunosqueridos!
FALANDO DISSO
denovooo.
Li e...
"(...) Rubem Alves utiliza uma estória para definir a INVEJA. Um homem encontra um gênio da lâmpada. Como já é de se esperar, o ser flutuante pode realizar todos os sonhos do sortudo, basta que este os verbalize. Ao imaginar todas as belezas e tesouros do mundo, de repente o homem se entristece, pois recebe do gênio uma notícia que não esperava: "a cada desejo realizado, o seu pior inimigo receberá em dobro o que foi pedido". O homem pensa, pensa, pensa e pede: "ME FURE UM OLHO".
Assim é a INVEJA e o invejoso, infeliz, porque é pequeno, é mesquinho, é feio.
O invejoso é o pior cego porque não se enxerga, não percebe que ninguém brilha com a luz do outro, que somente conseguimos brilhar com luz própria, que é uma soma de várias luzes, luzes dos outros, luzes ofertadas com amor, carinho, alegria, amizade, fraternidade, bem querer. Só brilha também aquele que é capaz de doar sua luz, com desprendimento, porque tudo na vida é uma troca, de energia, de luz, de carinho, de amor.
Só consegue brilhar e doar luz aquele que tem a alma leve e o coração puro, que sabe que tudo o que ofertar de coração, lhe será retribuído em dobro, triplo, quadruplo, exponencialmente e infinitamente. E que por ser assim feliz, sua luz nunca vai deixar de brilhar.
Mas para isso é preciso despertar para o belo, para o bom, para a felicidade. Um despertar solitário porque de alma, essência, sentimento. Tenha coragem de tornar-se uma pessoa melhor.
O pôr-do-sol começa dentro da gente antes de começar no poente..."
PÁGINA
(...)
Então eu fingi superficialidade e estranhamento. Fingi outro texto de partida, mas só pra descobrir que seria responsabilizada de novo. Por mim.
Alguns sentimentos a gente mata só quando mata o que há de mais bonito na gente. Assim.
Passou o dia pensativa juntando coragem na saliva até encorpar a voz. Aproveitou o ápice da sua agonia e, num impulso, disse tudo numa sensação só:
“A partir de hoje, decidi gostar de outro”.
No início ele riu da ousadia, mas o silêncio que ela fez em seguida preencheu de sinceridade aquela novidade.
“Você ficou maluca, de onde tirou isso?”
“ É que você nunca gostou de mim no grosso mesmo do sentimento...”
“ Mas ninguém decide que vai gostar de outro de repente e, simplesmente, começa a gostar!”
“ Ah, mas eu decidi... Ele vai realizar um sonho que tenho comigo: ele disse que vai gostar de mim bem do jeitinho que eu gosto de você. A diferença é que eu sei merecer essas coisas...”
(Marla de Queiroz)
9 de abril de 2010
DOIDAS E SANTAS
Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar o nosso poder de sedução para encontrar the big one, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá prá ocupar uma vida, não é mesmo? Mas além disso, temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar loura e cafetina, ou sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.
Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota.
Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe.
.
.
Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só se for louca de pedra.
[Martha Medeiros]
Tô preferindo ser uma louca boa, porque ser santinha...
4 de abril de 2010
FALA
Criaturaaa...
Beijoardidonabochecha.
O lavar-roupa-suja, o acerto de contas, os pontos nos ís... E ter que escutar as mesmas mentiras. As mesmas desculpas. O mesmo blá-blá-blá.
O bom é a distância para não apelar para a ignorância.
O deixar quieto. Ou simplesmente rir com o cinismo e a cara de pau. Sabe, somente os caras-de-pau sobrevivem. Eles que levam a melhor.
Nunca consegui ser assim. De qualquer modo, eu ri e rio á beça. Nem tanto para machucar. Mas pra saber. I see as coisas com outros olhos. Tenho um novo olhar. Já não sou a mesma. E falei, e despejei, e escancarei, e vomitei, e ruminei. Sou pensadora. Sou provocadora... é da minha natureza questionadora e inquieta.
Aguenta.
Vou te tirar do sério. Vou te fazer pensar. Vou te fazer ferver em diferentes graus. Mas, guenta. Tô aqui! Não irá doer nada. Minto. Dói sim.
Diga quando não gostar. Revide.
Ou... Fique em paz.
Aguenta.
Vou te tirar do sério. Vou te fazer pensar. Vou te fazer ferver em diferentes graus. Mas, guenta. Tô aqui! Não irá doer nada. Minto. Dói sim.
Diga quando não gostar. Revide.
Ou... Fique em paz.
E principalmente, me deixEmpaz.
Beijoardidonabochecha.
AAAHHHRR!!!
Os homens costumam fazer piadinhas com aquela semaninha cruel de nós, mulheres. Ela está naqueles dias, costuma-se dizer, com um sorrisinho cínico na boca.
A piadinha, meus queridos, pode custar-lhes a vida. (rs...)
É só lembrar que, se comprovado que aquela assassina
furiosa estava nesse famoso período crítico,
a mesma tem sua pena diminuída.
Todos entendem, viu, até a lei.
Eu, com essa minha calma e complacência... ah... Costumo fazer coisas que até eu duvido. Não costumo soltar impropérios, fazer atrevimentos e soltar caretas por aí.
Meu mau humor é comedido, escondido, o danado.
Mas quando menos se espera, ele ataca.
Conhecendo-me como já me conheço, evito surpresas. Guardo o mal-estar para mim. Mas quem não está avisado é capaz de estranhar minha voz tranqüila de volume baixo tomando ares de ... GRITO.
(aiai...)
Sem falar que fico consideravelmente mais sensível. Tento não interpretar erroneamente atos e palavras das pessoas que amo, mas nem sempre obtenho sucesso.
Coisas do passado costumam bater em minha porta. Me sinto só e PREFIRO ficar só.
Minha trilha sonora se esquece da distorção de uma melodia, dando lugar a qualquer coisa que me faça pensar e perturbar a mim mesma com um sentimentalismo que me irrita.
AAAHHHRR!!!
Que venha a dor!!! Que essa eu seguro.
Mas essa melancolia mensal...
É de tirar o juízo.
Sembeijonabochecha.
3 de abril de 2010
BEM VINDOS
São todos...
Não me considero uma pessoa boazinha. Mas os que me conhecem de verdade sabem que, por trás desse jeito despretensioso, há uma mulher teimosa que costuma meter a cara quando sente aquele "algo a mais" por alguém. Invisto e me arrisco como se fugisse do açoitamento do desejo. Eu o mato antes, claro, satisfeitíssima.
No entanto, no que se refere à amizade, ajo de modo diferente, cautelosa. Amigo é umas das poucas relações que temos na vida em que podemos, de fato, interferir, escolher. É algo que convêm cultivar sem, entretanto, deixar de lado os freios, as precauções.
Não se trata de "amigos adicionados" no orkut, é sua vida real.
Conhecendo muito bem minhas manias e pontos de vista seguros, tempos atrás resolvi mudar de tática. Pré-conceitos à parte, a princípio costumo me abrir e deixo-me ir. Se a companhia desagrada, eu me questiono - aliás, questionar-me é uma das atividades solitárias, mais divertidas que descobri nesses últimos anos. A palavra de lei é TENTAR. Porque bem sei o que já pensaram de mim por esse meu jeito docemente ácido e o juízo que eu mesma fiz de alguns queridos amigos que hoje possuo. Então, eu tento. Nessas tentativas, tenho aprendido a ser mais tolerante e até mesmo a me respeitar mais. Porque se, entre esse mundo todo de gente que conhecemos e esbarramos diariamente, há pessoas maravilhosas, também há quem nos faça ver que o esforço não vale a pena. É murro em ponta de faca. Aí, é lavar as mãos. Deixa estar que (parafraseando um grande amigo meu) o que é dele(a) tá guardado.
Há surpresas no meio do caminho. As tentativas chegam a gostosas amizades ou a simples cumprimentos vazios. Não culpo a ninguém, muito menos a mim mesma - com exceção de alguns sentimentos de ter sido ingênua vez ou outra. Tolo é quem se fecha para tudo e todos que divergem do seu mundinho. Estereotipados e rotulados somos todos nós. Mas é tolo também quem persiste no erro.
Ou seja, tolo é quem mente, não quem acredita! Então, acredito.
A fila não anda como no amor, pois amizade não exige exclusividade, mas lealdade. Nossas portas, porém, podem ser fechadas. E ai de quem não respeitar a casa alheia.
umbeijonabochecharosada.
30 de março de 2010
ENTRE ASPAS
Os imorais se chocam por nós, / Por nosso brilho, nosso estilo / Nossos lençóis. / Mas um dia, eu sei, a casa cai / E então a moral da história / Vai estar sempre na glória de fazermos / O que nos satisfaz...
(Z. Duncan)
Sou professora e vou morrer professora. Sou pensadora. O que não faz nem nunca fará de mim um ser celestial.
SEI LÁ
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
[Fernando Pessoa - ODES DE RICARDO REIS]
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
[Fernando Pessoa - ODES DE RICARDO REIS]
10 de março de 2010
A "XAVE" DA GRAMÁTICA
Foi diante de 50 ou 60 passageiros de um trem metropolitano (boa parte de pé) que dois homens de idade, com grandes vincos no rosto, resolveram puxar uma conversa:
- Olha, tão dizendo que teu pai tá te esperando na Lapa, é melhor você ficar ligado
- Rapaz, isto aqui tem nota viu. Eu mostro se ele quiser desembrulhar o pacote.
O diálogo acima retratado envolve dois vendedores ambulantes de São Paulo que, por estarem trabalhando na clandestinidade, precisam cifrar a conversa para despistar a fiscalização (pai).
‘’Enquanto existirem grupos e classes, existirão também gírias e calão’’. Ariel Tacla, autor do Dicionário dos Marginais, justifica assim o motivo de sua obra, publicada no longínquo ano de 1981. Engenheiro e filólogo, ele aproveitou a aproximação que teve junto ao Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro, do qual foi diretor, para reunir em livro uma amostra do rico jargão criado pelos detentos:
Desengoma a culatra esquerda daquele otário, que eu vou mandar ele de passage Tradução: Desabotoe o bolso traseiro da calça daquele sujeito,que eu vou lhe roubar a carteira, de passagem.
Solta essa grinfa, que dona Laura tá nas boca de carango. Tradução: Solta essa mulher que a polícia tá rondando de automóvel.
Ariel acredita que a gíria é uma espécie de caricatura do português ‘’padrão’’, criado e mantido pela elite. A fúria do preso se concentra na criação de novas palavras, expressões e significados sobre aquilo que a ele é imposto como a norma padrão da língua.
São nesses redutos, nos agrupamentos sociais à margem dos centros econômicos das grandes cidades lusófonas que a língua portuguesa respira, renasce e se expande. Mas o choque cultural com os homens de terno e gravata é inevitável. E aí que temos uma guerra, ou então uma treta: rola à vontade o preconceito cultural sobre a língua do pobre. Ele é subestimado, inferiorizado e taxado de burro e ignorante, pois ‘’menas coisas’’ está errado. ‘’É um assassinato à língua portuguesa’’, dizem eles.
Mesmo assim, os estudos lingüísticos mostram que a cultura popular sempre ganha, mas sempre precedida, é claro, de uma briga de foice. Pelo menos no Brasil, ‘’menos’’ será trocado por ‘’menas’’ (mesmo que o Word insista em grifar em vermelho) daqui há algum tempo. Mesmo com as chacotas na novela, das piadas nos humorísticos da TV e no sorriso irônico daquele colega da firma. A língua é patrimônio do povo, mesmo com todas as interferências políticas e econômicas que recaem sobre ela.
O escritor Guimarães Rosa, por exemplo, ao publicar sua mais famosa obra, ‘’Grande Sertão, Veredas’’, foi duramente combatido por alguns críticos reacionários por deturpar a língua portuguesa com termos do português utilizado nos rincões brasileiros. No entanto, o que temos hoje são estes mesmos críticos (com nomes diferentes , é verdade) colocando o escritor no mais alto altar da literatura em língua portuguesa. Nada mais tradicional no Brasil do que tratar, com tradicionalismo, a nossa flor do Lácio, inculta e bela.
Mexer no calo que já se acostumou com o sapato pode doer muito. Mas chega uma hora que é inevitável: ele terá de tirar o sapato e cheirar o xulé. Aí então ele vai ter de aprender que o odor ruim sentido pelo nariz dele pode ser um adocicado perfume francês para o resto povo. Rendido aos fatos, ele vai ter de aprender a fórmula do xulé , engarrafar o cheiro em finos frascos e mudar a noção de fedor de toda a sociedade.
A língua portuguesa passa todos os dias por este mesmo processo. Às vezes o problema não é o cheiro e sim o nariz...
e como está o seu nariz?!
3 de março de 2010
METONÍMIA
"Desconfie dos atalhos se estiver com pressa de ser feliz.
Não sei de quem é...
Mas sou a própria Metonímia!
ROUBEI PORQUE PARECE MEU
"Eu nunca fui uma moça bem-comportada. Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços. Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo. (...) Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que quase me deixa exausta. Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo. Eu sei chorar toda encolhida abraçando as pernas. Por isso, não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar.... Eu acredito é em suspiros, mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis, em alegrias explosivas, em olhares faiscantes, em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente. Acredito em coisas sinceramente compartilhadas. Em gente que fala tocando no outro, de alguma forma, no toque mesmo, na voz, ou no conteúdo. Eu acredito em profundidades. E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos. São eles que me dão a dimensão do que sou."
(M. de Queiroz)
Roubei porque parece meu.
2 de março de 2010
PARA TE COMER MELHOR - MARTHA MEDEIROS
TIRE-O DA CABEÇA
14 de setembro de 1998
Você estava apaixonado por alguém e levou um fora. Acontece mais do que acidente de avião, desastre com romeiros e incêndio na floresta. Corações partidos é o grande drama nacional. O que fazer? Ainda não lançaram um manual de auto-ajuda que consiga eliminar nossa fossa, e dos amigos só podemos esperar uma frase, repetida à exaustão: tire esse cara da cabeça. Parece fácil. Mas alguém aí me diga: como é que se tira alguém de um lugar tão cheio de mistérios?
Gostar de alguém é função do coração, mas esquecer, não. É tarefa da nossa cabecinha, que aliás é nossa em termos: tem alguma coisa lá dentro que age por conta própria, sem dar satisfação. Quem dera um esforço de conscientização resolvesse o assunto: não gosto mais dele, não quero mais saber daquele prepotente, desapareça, um, dois e já!
Parece que funcionou. Você sai na rua para testar. Sim, você conseguiu: olhou vitrines, comeu um sorvete e folheou duas revistas sem derramar uma única lágrima. Até que começa a tocar uma música no rádio e desanda a maionese. Você não tirou coisa alguma da cabeça, ele ainda está lá, cantando baixinho pra você.
Táticas. Não ficar em casa relendo cartas e revendo fotos. Descole uma festa e produza-se para matar. Você bem que tenta, mas nada sai como o planejado. Os casais que se beijam ao seu lado são como socos no estômago. Você se sente uma retardada na pista de dança. Um carinha puxa papo com você e tudo o que ele diz é comparado com o que o seu ex diria, com o que o seu ex faria. Chamem o EccoSalva.
Livros. Um ótimo hábito, mas em vez de abstrair, você acha que tudo o que o escritor escreve é para você em particular, tudo tem semelhança com o que você está vivendo, mesmo que você esteja lendo sobre a erupção do Vesúvio que soterrou Pompéia.
Viajar. Quem vai na bagagem? Ele. Você fica olhando a paisagem pela janela do ônibus e só no que pensa é onde ele estará agora, sem notar que ele está ali mesmo, preso na sua mente.
Livrar-se de uma lembrança é um processo lento, impossível de programar. Ninguém consegue tirar alguém da cabeça na hora que quer, e às vezes a única solução é inverter o jogo: em vez de tentar não pensar na pessoa, esgotar a dor. Permitir-se recordar, chorar, ter saudade. Um dia a ferida cicatriza e você, de tão acostumada com ela, acaba por esquecê-la. Com fórceps é que a criatura não sai.
(Martha Medeiros)
INTERROMPENDO AS BUSCAS
ASSISTINDO AO ÓTIMO "CLOSER - Perto demais", me veio à lembrança um poema chamado "Salvação", de Nei Duclós, que tem um verso bonito que diz: "Nenhuma pessoa é lugar de repouso". Volta e meia este verso me persegue, e ele caiu como uma luva para a história que eu acompanhava dentro do cinema, em que quatro pessoas relacionam-se entre si e nunca se dão por satisfeitas, seguindo sempre em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Não há interação com outros personagens ou com as questões banais da vida. É uma egotrip que não permite avanço, que não encontra uma saída - o que é irônico, pois o maior medo dos quatro é justamente a paralisia, precisam estar sempre em movimento. Eles certamente assinariam embaixo: nenhuma pessoa é lugar de repouso.
Apesar dos diálogos divertidos, é um filme triste. Seco. Uma mirada microscópica sobre o que o terceiro milênio tem a nos oferecer: um amplo leque de opções sexuais e descompromisso total com a eternidade - nada foi feito pra durar. Quem não estiver feliz, é só fazer a mala e bater a porta. Relações mais honestas, mais práticas e mais excitantes. Deveria parecer o paraíso, mas o fato é que saímos do cinema com um gosto amargo na boca.
Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas ¿ sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o rodízio e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo "leve dois, pague um", também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.
Não há nada de errado em curtir a mansidão de um relacionamento que já não é apaixonante, mas que oferece em troca a benção da intimidade e do silêncio compartilhado, sem ninguém mais precisar se preocupar em mentir ou dizer a verdade. Quando se está há muitos anos com a mesma pessoa, há grande chance de ela conhecer bem você, já não é preciso ficar explicando a todo instante suas contradições, seus motivos, seus desejos. Economiza-se muito em palavras, os gestos falam por si. Quer coisa melhor do que poder ficar quieto ao lado de alguém, sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso?
Longas relações conseguem atravessar a fronteira do estranhamento, um vira pátria do outro. Amizade com sexo também é um jeito legítimo de se relacionar, mesmo não sendo bem encarado pelos caçadores de emoções. Não é pela ansiedade que se mede a grandeza de um sentimento. Sentar, ambos, de frente pra lua, havendo lua, ou de frente pra chuva, havendo chuva, e juntos fazerem um brinde com as taças, contenham elas vinho ou café, a isso chama-se trégua. Uma relação calma entre duas pessoas que, sem se preocuparem em ser modernos ou eternos, fizeram um do outro seu lugar de repouso. Preguiça de voltar à ativa? Muitas vezes, é. Mas também, vá saber, pode ser amor.
(Martha Medeiros)
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