31 de março de 2009

PARA TE COMER MELHOR - JABOR

ESTAMOS COM FOME DE AMOR
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Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar:
"Digam o que disserem, o mal do século é a solidão".
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Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias. Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos. Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção. Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós. Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos Orkut, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra ser sozinho!". Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega. Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí? Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta.Mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois. Quem disse que ser adulto é ser ranzinza? Um ditado tibetano diz que se um problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém: "vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".
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Antes idiota que infeliz!

14 de março de 2009

TROCA-SE UM CORAÇÃO EM BOM ESTADO POR UM FIGADO

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RIFA-SE


Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista. Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.

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Rifa-se um coração que na realidade está um
Pouco usado,
Meio calejado,
Muito machucado
E que teima em alimentar sonhos
E cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste
De acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
Que acha que Tim Maia
Estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...

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Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a
Esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
Sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
Relações e emoções verdadeiras.

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Rifa-se um coração que insiste em cometer
Sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
De causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
Arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

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Rifa-se este desequilibrado emocional
Que abre sorrisos tão largos
Que quase dá pra engolir as orelhas,
Mas que também arranca lágrima
Se faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
Por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
Quem quer viver intensamente
Contra indicado para os que apenas pretendem
Passar pela vida matando o tempo,
Defendendo-se das emoções.

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Rifa-se um coração tão inocente
Que se mostra sem armadura
Se deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
Ouvirá o seu usuário
Dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir.
Eu fiz tudo certo,
Só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
Quando ouvi este louco coração de criança
Que insiste em não endurecer e,
Se recusa a envelhecer".

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Rifa-se um coração,
Ou mesmo troca-se por
Outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
Tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.

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Rifa-se um coração
Cego, surdo e mudo,
Mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras
Que ainda Não foi adotado,
Provavelmente, por se recusar
A cultivar ares selvagens ou racionais,
Por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,

Sem raça,
Sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
Até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
Mesmo estando fora do mercado,
Faz questão de não se modernizar,
Mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
Seu usuário a publicar seus segredos
E a ter a petulância de se aventurar como poeta...



5 de março de 2009

CUIDADO! NEM TÃO FRÁGIL ASSIM...

O que eu guardo nessa caixa?
É segredo. Coisa minha.
Pára.

Não insista.


Aqui guardo o que não se mostra.
O que ninguém jamais viu.
As lembranças abandonadas e as vontades esquecidas.
Os sonhos que nunca viveram.
As verdades nunca ditas.
E as mentiras juradas.
Guardo aqui as ilusões.
Os rancores e os amores.
Os sentimentos dissimuladosE as paixões dizimadas.
É aqui que escondo as lutas que não lutei.
Os caminhos perdidos e as trilhas jamais trilhadas.
Os mapas rasgados.E as aventuras divagadas.
Aqui oculto o que me devora...
A fome desnutrida e a sede não saciada.
O desejo proibido
E as aspirações censuradas
Abrigo aqui os gritos abafados
O verbo desconjugado.
Os detalhes não notados.
E a palavras encurraladas.

O que eu guardo nessa caixa?
Guardo o medo e a máscara

e Pronto!



(L. Cecchini)
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VOLTEI


Onde está a flor que esqueci de regar? Sim, porque plantei a semente, adubei a terra. E irriguei o vaso. Foram dias que viraram meses. A flor brotou suave. Cresceu perfumada e vermelha. Ficou feliz comigo. Depois de muita prosa, eu também estava afortunada, confesso. Então vieram tempestades. Nem assim, deixei de banhar minha florzinha. Que se mantinha ali, forte e próspera em sua vida de flor. Mas afastei-me um dia.E ela, sozinha, teve mesmo nada por companhia. Acho que não viveu de ar a pobre. Perdi-me no tempo etéreo que tudo leva. E voltei somente agora. Ávida. Ela não está aqui. Nem exasperada. Nem nada. Desapareceu, minha linda. Padeceu?


Onde está a flor que esqueci de regar?


Se não secou e nem morreu?




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BOLHANDO... PARA VARIAR UM POUQUINHO!

Ontem estava em estado de letargia.

Assim, quietinha fugida do mundo que chamam de realidade.

Qualquer distração me prendia.

Fácil assim ó.

Era só fixar o olhar na distração que logo pairava no ar, feito bolha de sabão.

Que delícia.

Não que eu desgoste do meu chão.

Nada disso, meu caro.

Vivo de viver, juro.

Mas tem horas em que quero descansar as pernas.

Só isso, viu?

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NA HORA



Sempre soube. Mesmo sem nunca ter visto ou tocado. Sabia que estava lá. Segredo de um relógio.

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Vai.

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Não volta.

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Nem fica.


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Escorre entre os dedos. Minha pele às vezes é macia. E ele flui mais fácil nesse tempo de suavidade. Um dia, por um segundo perdido, nossos olhos se toparam. Efêmero e improvável. Mesmo assim, perdi a hora. Não ouvi o tilintar. Esqueço. No abre-fecha, desencontros.
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No fecha-abre, possibilidades. Sinto como um bem-querer. Fecho os olhos para ver melhor. As mãos se abraçam, perpetuadas. Quero cessar. Impossível. Seguro o ponteiro. Tão forte que sangram os dedos. Parou. O silêncio interrompido. E nada, meu Deus, não há nada. Um branco dissolvido. Sem começo, meio ou fim. NADA. Sobressalto e boca seca. Falta-me ar. Não adianta, menina tola, não adianta. Travo os dentes. Solto a alavanca. Os braços doem e ele segue, enfim. Agora o ar está de volta. A pele, ressequida.
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INDEPENDÊNCIA É A MORTE

Parei o carro no estacionamento. No chão, brita. A brita quando em contato com o pneu faz um barulho chato. A aderência não é perfeita, e por isso, pequenas derrapagens sem danos a ninguém acontecem sempre. Estacionei ao lado do carro vermelho. Havia um homem sentado no banco do carona. Cabelos bem brancos. Não teve curiosidade de olhar para o lado. Só eu olhei. Mas não olhei por curiosidade. Apenas olhei. Uma mulher veio em direção ao carro. Tinha idade para ser a filha mais jovem do homem. Poderia também ser sua neta mais velha. Eu não sei.
- Vamos. Devagar você consegue. Eu te ajudo.
A mulher tinha voz afável e completamente paciente. Ele apenas a olhou; não disse sequer uma palavra. Aqueles olhos azuis diziam muito mais que sua própria boca. A pele tão branca se assustava com o tom daquele azul. Azul diferente do céu. Diferente de todo tom de azul que já vi. E eu já vi muito azul.
- Ai!
Ele estava sentindo dor. Contudo, a jovem mulher ajudou-o nos passos. Depois da saída do carro, o segundo empecilho foi a calçadinha de acesso que, depois de mais alguns ais, fora vencida bravamente. Apenas restaria a grande rampa. Ela falou algo ao pé de seu ouvido.
- Não, eu não quero.
A voz dele era de dor. Ela o escorou ao corrimão bem no início da rampa. Ele olhou para mim. Baixou a cabeça. Fitou o chão. Vi nele o mesmo olhar de vovó quando adoeceu. Um olhar que expunha sentimento de vergonha pela dependência crassa de tudo e de todos. Engoliu seco. Fechou os olhos. Nesse instante vi movimentação no topo da rampa. Finalmente enfermeiros. Enfim enfermeiros. Enfim. Ele não olhou mais para mim. Enquanto eu ainda esperava meu propósito, permiti-me encostar a cabeça no volante do carro.
O sol estava indo embora, mas deixava para trás a dor daquele velho homem...

Minhas Vogais e Consoantes são Altamente Inflamáveis e Ardidas