5 de março de 2009

INDEPENDÊNCIA É A MORTE

Parei o carro no estacionamento. No chão, brita. A brita quando em contato com o pneu faz um barulho chato. A aderência não é perfeita, e por isso, pequenas derrapagens sem danos a ninguém acontecem sempre. Estacionei ao lado do carro vermelho. Havia um homem sentado no banco do carona. Cabelos bem brancos. Não teve curiosidade de olhar para o lado. Só eu olhei. Mas não olhei por curiosidade. Apenas olhei. Uma mulher veio em direção ao carro. Tinha idade para ser a filha mais jovem do homem. Poderia também ser sua neta mais velha. Eu não sei.
- Vamos. Devagar você consegue. Eu te ajudo.
A mulher tinha voz afável e completamente paciente. Ele apenas a olhou; não disse sequer uma palavra. Aqueles olhos azuis diziam muito mais que sua própria boca. A pele tão branca se assustava com o tom daquele azul. Azul diferente do céu. Diferente de todo tom de azul que já vi. E eu já vi muito azul.
- Ai!
Ele estava sentindo dor. Contudo, a jovem mulher ajudou-o nos passos. Depois da saída do carro, o segundo empecilho foi a calçadinha de acesso que, depois de mais alguns ais, fora vencida bravamente. Apenas restaria a grande rampa. Ela falou algo ao pé de seu ouvido.
- Não, eu não quero.
A voz dele era de dor. Ela o escorou ao corrimão bem no início da rampa. Ele olhou para mim. Baixou a cabeça. Fitou o chão. Vi nele o mesmo olhar de vovó quando adoeceu. Um olhar que expunha sentimento de vergonha pela dependência crassa de tudo e de todos. Engoliu seco. Fechou os olhos. Nesse instante vi movimentação no topo da rampa. Finalmente enfermeiros. Enfim enfermeiros. Enfim. Ele não olhou mais para mim. Enquanto eu ainda esperava meu propósito, permiti-me encostar a cabeça no volante do carro.
O sol estava indo embora, mas deixava para trás a dor daquele velho homem...

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